“Um Brasil em disputa”: haverá lugar para as mulheres?
Rita de Cássia Machado
Professora, filósofa e feminista. Secretária Geral da Sind-UEA.

Acabei de ler o livro Mundo em Disputa, da filósofa Márcia Tiburi, e recomendo a leitura a todas. Márcia traz uma reflexão importante e provocativa para o nosso tempo. A partir das provocações da autora, eu pergunto: haverá mundo para as mulheres? Será que a disputa sobre a própria ideia de mundo poderá ser feita por nós de forma crítica e emancipatória?
Parece distopia tudo o que estamos vivendo e escutando. Ver mulheres se posicionando contra o voto feminino — algo que nem deveria estar mais em pauta — é um sinal de alerta. Mulheres que se autodefinem como antifeministas afirmando que o feminicídio é apenas uma “narrativa semântica”, ou defendendo que os homens precisam ser “mais letais” em determinados casos. É uma distopia muito parecida com a que assistimos na série The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), que também sugiro que assistam — quem ainda não o fez e tiver estômago para tal.
Mas o que realmente está em jogo por trás desses discursos, imagens e semióticas que invadem nossas redes sociais e nos causam tanto desgosto? Qual é a real necessidade dessa disputa contra as feministas?
Com certeza, não se trata de um projeto de país melhor para todas nós; pelo contrário. Não existe qualquer argumento lógico ou lúcido para a construção de um mundo mais justo para as mulheres nessas ideias. Segundo Márcia Tiburi, esses discursos reforçam um terrorismo que se reproduz aceleradamente, de forma industrial, normalizando a ideia de que devemos voltar para a cozinha e aceitar a violência masculina sempre que um homem julgar necessário. Chamamos isso de naturalização da distopia.
Disputar contra um grupo de mulheres que têm uma visão de mundo livre e que luta por direitos não é outra coisa senão mover homens machistas que, uma vez no poder, continuarão a privilegiá-las. Porque a verdade é esta: essas mulheres antifeministas lutam por privilégios geracionais e equivocados.
E é exatamente isso o que todas as mulheres que não são movidas pelo ódio deveriam compreender. Sem entender o sentido político dessas posturas, fica muito difícil se movimentar, se organizar e se posicionar. E aqui estamos falando de um posicionamento crítico. Até porque conhecemos a nossa história — ou deveríamos conhecer: nunca foi fácil para nós. Todos os nossos direitos foram duramente disputados e conquistados com muita luta e sangue. Muitas mulheres precisaram enfrentar sociedades violentas, machistas e misóginas para que hoje você pudesse, por exemplo, estudar e ter uma profissão.
Por isso, eu conclamo que nós, feministas, façamos um movimento firme contra os ideais antifeministas. Talvez essa ideia soe redundante, mas é necessária: ou nos colocamos na disputa, combativas como foram as soviéticas, ou seremos engolidas pelo ódio, pelas fobias e pelos absurdos vindos desse grupo político que parece ascender no Brasil. Ou fazemos isso, ou nossa visão de mundo será esvaziada e, de forma catastrófica, seremos ainda mais violentadas. A história é a história da luta de classes — isso nunca mudou —, portanto, precisamos unir forças e mentes para o combate.
Um combate que, vale ressaltar, não deve perder de vista o enfrentamento direto e amoroso com outras mulheres. Vamos parar de dar palco para quem nos ataca e criar o nosso próprio “palco”. Nós conseguimos, eu acredito muito nisso. Nosso projeto é coletivo: é de direito, de vida e de futuro. Todas aqui querem transformar a realidade e, se queremos transformar, precisamos decidir agora. Como diz o poeta: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
A contracodificação utópica é urgente e irá desconfigurar essas falsas narrativas. Se elas falam em “voltar para a cozinha”, nós falamos em ocupar espaço nas universidades. Se elas defendem mais violência, nós lutamos pelo respeito aos nossos corpos e mentes.
O nosso projeto precisa ser o governo Lula, com todas as questões e contradições implícitas que ele carrega. Jamais poderá ser a extrema-direita, que trata as mulheres como coisas, objetos descartáveis. E isso, inclusive, acontecerá com as próprias antifeministas: depois de usadas pelo sistema, serão descartadas. Afinal, é e sempre foi assim que os valores capitalistas se comportaram: utilizam e, depois, descartam.
Mulheres, uní-vas!
Brasil, 07 de outubro de 2026.
